quarta-feira, 27 de agosto de 2008

fIGHTING (fIGHTING fOR lIGHT)

Eu tenho acompanhado minha babosa e um bálsamo crescendo no oratório ao pé da janela do quarto.
Como o tempo voa para as plantas! As pedrinhas e cascalho do vaso plástico dormem enquanto isso.
A babosa e o bálsamo se conversam, às vezes brigam, outras discutem.
Ela é mandona, insistente.
Dei a cada um deles um lápis de cor da minha caixa predileta. Dei a eles as cores que eu menos usava. Não que eu não tenha tido consideração alguma por eles. Igualmente, não fiz pouco caso dos gostos particulares da babosa ou do bálsamo. Nem menosprezei o conhecimento estético de nenhum dos espécimes... Apenas, estes eram os lápis mais compridos, e as mudas precisavam de suporte.


Sendo assim, o bálsamo ficou com o verde musgo. Já a babosa, ficou com o bege.
Dizem muitas coisas a respeito dos feios, dos chatos, desengonsados, malcriados, estúpidos, interesseiros... Estes (exceto os feios) sempre são os que se dão bem.
A babosa detestou sua cor de lápis e, mesmo sem ter noção de escrita ou do prazer que desenhar e colorir podem dar, tomou para ela o lápis do bálsamo.
Eu já tinha notado isso. Mas, por ser da natureza do bálsamo a gentileza, imaginei que pudésse tudo estar bem.
Agora percebo que ela o jogou para a borda do vaso. Que o arrebate contra a parede. Que cresce ferozmente sobre ele. Que o sombreia! Que me ameaça espetar, fazer de mim seu adubo e mudar-se para minha cama...

Só que eu a amo tanto que perdi essa noção prejudicial das plantas espinhosas. Chego a sentir que a eminência dessa dor é que é a gratidão dela por mim. Então permito. Mas sofro.
Ao mesmo tempo, se eu removo o bálsamo para uma casa maior, mais iluminada e dou-lhe de companhia um caramujo de porcelana falsa, não o ensino a lutar!
Todos os dias convivo com isso. Vejo (enquanto torço em silêncio por uma reação) o bálsamo mudar do verde escuro apastelado para um tom abaixo... e outro abaixo... outro menor... até dar nisso que está lá agora, um amarelado ramo novo no topo da haste. Tolo, não sabe que a esperança deve ser verde.
A babosa ri. Essa gêmea, hoje com cara de irmã mais velha. Má. Maior.
Acho que o próximo serei eu. Já tenho saudade de mim e do meu quarto.

vIVER E sEUS vÍCIOS










De repente, viver é só esvaziar uma lata de cerveja.
Seja a primeira da balada, estupidamente gelada, loira suada, gostosa, boa ou qualquer adjetivo publicitário que lhe possa ser dado.
Seja a última da noite, esvaziada na guia, quando o dia já é claro e você é mais estúpido que o ingênuo líquido alcóolico já sem gás.
Você aponta exatamente para onde está. Você se justifica todo o tempo. Você segue a orientação do seu próprio dedo, torcendo para estar certo.
E nunca pode ser tão bom. Você tem plena consciência de que poderia e deveria ter parado com isso há algum tempo.
Seus sentimentos são exagerados, indecifráveis, inconfessáveis. Algo está errado. Você é inteligente. Feliz. Bonito. Atraente. Mas não tanto para sair da média.
Viver se torna o maior dos vícios. Incurável.
É um jogo sádico de planejar a própria frustração. Você pensa que é possível superar a si próprio. Mas não é. Não é...
Você pode ser vencido por si próprio, perder feio, deixar aquém, mas nunca ir além sem um game over.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

pANAPANÁ

:


A imagem na memória já começa a desfazer.
Aconteceu um instante longo de estado vegetativo em mim...


..

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

jUSTA-mEDIDA

Qual a invariável da justa-medida?

O valor do sono depende de quem o acorda.
O tamanho da beleza depende do carinho de quem olha.
O sabor do prato, da música que se ouve.
O custo do telefonema, do tempo da saudade.
O calor do abraço, da vontade do beijo.

As sensações mais doces, prazerosas, inspiradas ou apaixonadas são frequentemente as mais desmedidas.
O querer nos obriga a fazer coisas horríveis.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

mAUS hÁBITOS

Tinha acabado de mijar e escovar os dentes.
Pia. Espelho... Um rosto para se chorar, pensou, mas não chorou.
Com os olhos secos, passou a língua pelos dentes todos. Verificou num dos espaços entre dentes o vestígio de algum alimento.

Havia comido pela última vez horas atrás.
Abriu a porta do gabinete. Olhou-se de novo. Fechou a porta espelhada do gabinete: "Hoje não vai ter fio dental".

Apagou a luz do banheiro quando ia saindo. Foi até a cama totalmente no escuro. Deitou e se cobriu com a colcha aparentemente sexagenária ou algo assim. Herança.
Sonhou. Primeiro, era criança e tentava inutilmente fugir de bexigas assassinas em formato de frutas. Depois, era mulher e amante de uma feminista revolucionária da décade de 70. A seguir, sonhou com carros, estradas e céus psicodélicos com xícaras de café quente. Mas não se lembrou de nada ao despertar.
Desligou o rádio-relógio e, abandonando a cueca no chão do quarto, foi direto para o banho.
Olhou-se de relance ao passar pelo espelho. Voltou. Parou.
Um dente havia crescido em sua testa. Ele nunca mais esqueceria do fio dental.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

nAMORO aBERTO


Tinha um menino.
Não esse, outro menino.
E ele me amaria e eu a ele.

E seria assim. Não fosse eu quem sou (que não consigo).

Eu vivo sozinha as minhas histórias. E aqui, de novo, again, vou precisar dormir pelada num quarto estranho. Morrer de frio até a garganta reclamar no silêncio. Ligar uma, duas, três, quatro até cinco vezes num mesmo minuto. Mandando mensagens de texto nos intervalos desse tempo.
Seguir dizendo aos confidentes aquelas palavras secretas que o menino despejou pra mim... enquanto lembro que não foi bem isso. Mas óbviamente eu talvez... quero dizer... wherever.

Daí que nada fora dessa rota acontece.
Parece tanta burrice não ter dado meus pulinhos por fora já que estava tudo liberado. Eu fico com a sensação de estar saciada. Enquanto que, se fosse com ele, seriam mais duas ou três, até quatro - no máximo - numa noite mal dormida.
Quantos amores da minha vida eu perdi? Quais seriam as formas, cores, gostos e tamanhos dessas picas?
"Não gosto que gostem de mim." Mais uma vez à procura de algo que se possa rotular como minha verdade - verdade é um conceito autônomo.

Liga, liga, liga. E as mensagens se perdem e eu já não sei que história ele ouviu de mim.
Antes dele existir assim não tinha nada disso. Nem ninguém a ser chupado com tamanho fervor. Nem a quantidade perfeitamente distribuida de massas e músculos num corpo alto com pêlos raspados de nadador. Nem essa estrutura se movimentando de acordo com minhas mais sutis coordenadas, ora com quadril e cintura, ora pontas das unhas ou palmas inteiras.
AHH! (e eu teria que acrescentar outros H's).

Tanta merda pra pensar. Só porque hoje, mesmo sem querer, insisti um pouco e não fui correspondida.
Bosta! Eu queria mesmo só conversar.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

(sEM tÍTULO)

Eu fico de martírio aguardando o sono.
Ele sempre me engana.
Às vezes eu durmo enquanto espero e ele não vem.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

mISS bARILOCHE


O mundo parece mais real visto na Tv, em filmes, pela internet ou nos meus diários.
Daí que é nessas horas que eu me sinto mais parecida com o que eu queria ser e menos comigo mesma. Então, é quando volto pra mim e tenho um lençol de solteiro com elástico esgarçado, com a cor meio desbotada e um único furo já antigo - talvez alguma mancha, mas o lençol é só exemplo pra qualquer coisa.
Existem muitas coisas nesse sentido. Muitas mesmo.

A parede do meu quarto tem muitas irregularidades.
Nunca quero que ela seja totalemente lisa. Nunca quero com muita sinceridade, digo.
Depois, no fundo, nenhuma mídia é mais legal do que as coisas que eu tenho de verdade. Não vai ter o filme da minha vida.

Estranho as coisas não acontecerem sem mim.