quarta-feira, 22 de outubro de 2008

gRIPE

O corpo estava deitado na cama.
Morto, pôde ver como formava-se a fina e bem estruturada camada de poeira sobre os móveis.

O corpo assim de bruços. A cabeça apontada para sua esquerda. A orelha amassada mas sem dor. Os pés escapando pelos dedos da borda do colchão.
Os olhos vidrados na mesa. Postos sobre a mesa.
A caneca de criança com seus antigos lápis apontados nas duas extremidades, suas canetas pretas de clique, os canudos que colecionava. O prego da prancheta na táboa lateral da escrivaninha.
Onde estava a prancheta velha de eucatex? Tinha ou não decidido por arrancar-lhe aquele adesivo de rádio FM?

Na gaveta, os chicletes de canela, os óculos reserva, as revistas masculinas.

O telefone ligado ao carregador na tomada. Se alguém ligasse, não atenderia.

a vOZ oFF

Hey, Garoto! e Hey, Garota!
Ouçam-me.
Hey, Garoto! e Hey, Garota!
Vocês precisam me ouvir..

Vocês precisam ver o mundo com os meus olhos.
Porque eu, eu sou a voz.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

pROJEÇÃO

Agora não são só palavras.
Quando eu mostrei em câmera lenta todos os detalhes da situação.
Eu sei. Você sabe.
Eu te amo tanto.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

cALO


Está tudo OK.
Tem momentos em que o melhor a se fazer é calar.
Mas a coisa funciona assim, cala-se a voz enquanto o coração matuta. O cérebro caleja. Os dedos descamam.
Na prática, só depois de muito tempo de silêncio é que se pode reconhecer se aquele era mesmo um momento de se calar.