Tinha acabado de mijar e escovar os dentes.Pia. Espelho... Um rosto para se chorar, pensou, mas não chorou.
Com os olhos secos, passou a língua pelos dentes todos. Verificou num dos espaços entre dentes o vestígio de algum alimento.
Havia comido pela última vez horas atrás.
Abriu a porta do gabinete. Olhou-se de novo. Fechou a porta espelhada do gabinete: "Hoje não vai ter fio dental".
Apagou a luz do banheiro quando ia saindo. Foi até a cama totalmente no escuro. Deitou e se cobriu com a colcha aparentemente sexagenária ou algo assim. Herança.
Sonhou. Primeiro, era criança e tentava inutilmente fugir de bexigas assassinas em formato de frutas. Depois, era mulher e amante de uma feminista revolucionária da décade de 70. A seguir, sonhou com carros, estradas e céus psicodélicos com xícaras de café quente. Mas não se lembrou de nada ao despertar.
Desligou o rádio-relógio e, abandonando a cueca no chão do quarto, foi direto para o banho.
Olhou-se de relance ao passar pelo espelho. Voltou. Parou.
Um dente havia crescido em sua testa. Ele nunca mais esqueceria do fio dental.

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